terça-feira, 30 de junho de 2015

Complementos - Conto




De imediato ela corou. Fechou os olhos e resolveu sorrir. Pois ele a olhava.
Quando abriu os olhos, ele ainda a observava. Suplicando sua atenção.
Aquela garota era perfeita aos teus olhos.
Não se conheciam. Apenas ficavam em bancos opostos no intervalo do colégio. Ali, bem ali, sozinhos e solitários.
Ambos estavam eufóricos.  Um garoto e uma garota na puberdade. As mãos suavam, a barriga em eternos barulhos e o coração disparado.
Ela então começou a se aproximar dele. Impulsiva, futura mulher.  E resolveu quebrar o silencio. Abriu a boca e ...
... ah!
Ela se esqueceu! A pobre garota não falava. Ela era muda.
Sem poder conter, chorou. Aquele era o primeiro dia em anos que ela esquecera.
Quão idiota! – Ela pensava.
O garoto então tomou forças. Levantou as mãos e fez um gesto que só mudos entendem.
E abriu a boca...
... ah!
Ela então soube.
Ele também não falava.
Depois disso nada mais importava e os dois sorriram.  Aquela felicidade complexa e simples, mas perfeita, existia.
Ambos não tinham voz. Não podiam falar, cantar, fofocar. Mas muitos nesse mundo não têm coração.
E ambos tinham.
A falta de voz, não foi obstáculo para o garoto gesticular: “Eu amo os teus olhos”.







Samarah Gomes Bibiano


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