quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Acalento Uterino


Aquele espermatozoide fecunda o óvulo. É algo mágico mesmo que já tenha acontecido mais de sete bilhões de vezes. Mesmo sendo de tamanho insignificante, e de existência questionada a criatura já se manifesta feliz e no ventre de sua mãe repousa paciente e calmo.
Ali, bem ali, no seu mundinho se encontra a paz. Não há dias ruins, medo ou insegurança. Ali se encontra ternura, afeição e amor.
Algumas semanas se passam e ás vezes aquele pequenino ser escuta as batidas do coração de sua mamãe. Aquelas batidas são mais apaixonantes que as músicas do Djavan.
Não vive em um útero materno, se encontra no paraíso.
Porém um dia aquele serzinho se desprende. Seu mundinho acaba. No Desespero ele se encontra, conhecendo o medo e a aflição.
Ali havia uma pequena artéria. Mais adiante haveria um coração. Um coração que bateria harmonicamente igual ao da mãe.
E então ele se afunda. Para de sonhar. Respirar. O pequenino ser morre.
Sua mamãe sente algo. Percebe um sangramento. Uma dor, solidão talvez. E chora, chora alto.
Papai vem até mamãe. Pergunta o que há, e pelo olhar dela, entende. Um aborto espontâneo.
Agora ambos choram.
_ Nem todos os dias hão de ser felizes – Ele diz.
_ Eu só precisaria de um dia – Ela completa.
Mas naquele mundinho, o fim não poderia ser assim. O serzinho deveria deixar algo para sua mamãe, algo que a acalmasse.
E então uma paz preenche o coração daquela mãe. Estava serena e forte, como a muito não sentia.
Um sorriso aparece na mulher.
O para muitos inútil serzinho deixou uma mensagem para aquela mãe: ­” Eu lutaria de novo, correria de novo, para escutar as batidas do seu coração. Eu não morri, eu transbordei no seu amor. “

(Dedicado a todas as mães que perdem seus filhos, independentemente se eram nascidos ou não).


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Promessas da manhãzinha



Já vi pessoas saírem das cinzas elegantemente. Elas sofrem, sofrem, sofrem e sem perceber começam a voar. Como águias.
A dor vira mestre, e retorna em aprendizado. Em um momento estão frágeis e inúteis, e no outro, radiantes.
Essas pessoas deixaram a dor ensina-las. Dançaram e riram de sua própria desgraça.
E magnificamente no outro dia, venderam suas lagrimas em uma crônica para um jornal.
E cresceram e amaram a si.
Porque quando sofremos aprendemos a nos amar mais. Já não é mais egoísmo, é amor próprio. É aceitar farpas, é aprender com as águias.
É viver nas loucuras. Esquecer-se do errado ou do certo.

Porque quem se aceita nas cinzas, permanece no sol. E a cada manha retorna a sua promessa matinal. A promessa de jamais deixar de sorrir se tristemente as cinzas voltarem.